Um mercado digital clandestino atua no comércio ilegítimo de logins, senhas e acessos a sistemas públicos e privados no Brasil. Uma investigação acompanhada durante um mês pela reportagem do Fantástico, da TV Globo, identificou a negociação de credenciais de autoridades que possuem permissão para acessar redes protegidas, além da venda de “painéis” que reúnem dados obtidos ilegalmente, como informações do Imposto de Renda, saúde e compras online.
Entre as ofertas monitoradas, constavam acessos ao sistema da Secretaria de Segurança do Paraná por cerca de R$ 100 e logins do Tribunal de Justiça de Santa Catarina por R$ 500. Serviços para alteração de processos judiciais e exclusão de mandados de prisão eram negociados por R$ 1 mil. Em órgãos de trânsito, eram oferecidas modificações e exclusões de multas.
As informações foram levadas ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), que testou e confirmou a funcionalidade das credenciais por meio do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (NUPVE). O MPRS e polícias civis de diferentes estados apuram a atuação dessas redes, que incluem a comunidade internacional denominada “The Com”. O grupo utiliza dados vazados também para a prática de extorsões e chantagens contra jovens.
Em Goiás, investigações do Tribunal de Justiça e da Polícia Civil identificaram cerca de 140 adulterações no Banco Nacional de Mandados de Prisão e 350 acessos fraudulentos. No Pará, a Polícia Civil, em parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), monitora o vazamento de dados — que somou 18 bilhões de registros expostos em 2026 — para subsidiar mandados judiciais.
Investigadores apontam que invasores utilizaram credenciais de bombeiros do Pará para disparar um alerta indevido pelo Sistema Nacional da Defesa Civil com a palavra “misantropia”. Em resposta, órgãos públicos relataram a adoção de medidas de segurança, como autenticação multifator e controle de acessos. Receita Federal e Ministério Saúde informaram não ter identificado evidências de invasão em seus sistemas.







