A Times Square, em Nova York, sempre foi o epicentro do excesso. Mas, durante a Copa do Mundo, suas telas gigantes e luzes de neon serviram apenas como moldura para um espetáculo muito mais revelador: o espelho da alma de duas nações.
De um lado da avenida, o bloco vermelho da Noruega marchava com o peso da história e a leveza da civilidade. Sob o comando de um tambor compassado, centenas de cidadãos se agachavam em uníssono. O movimento era um só: braços esticados para a frente e recolhidos com força em direção ao peito. Estavam ali, no asfalto americano, evocando seus antepassados. O grito que ecoava de suas gargantas era ”Ro!” : o comando ancestral para remar.
Havia ali uma sincronia assustadora de tão bela, uma demonstração de que a força de um povo reside na sua capacidade de agir como um corpo único, coordenado, disciplinado. O “Viking Row” era uma aula de educação e propósito. Mostrava um povo que entende que, para o barco avançar, todos precisam puxar o remo na mesma direção, com respeito ao espaço público e ao olhar do outro.
A poucos metros dali, a resposta brasileira não tardou. Mas o barco que os brasileiros decidiram colocar na água era de outra natureza. Aproveitando o mesmíssimo ritmo cadenciado do tambor nórdico, a torcida canarinho, vestida de amarelo, também se sentou no chão. Mas o movimento de braços e quadris que se seguiu não evocava navios, conquistas ou união; simulava, de forma explícita e hiperbólica, o ato sexual. O grito ritmado que substituiu o comando de navegação foi o ”Créu”, resquício de um funk de duplo sentido que atravessou décadas para virar o cartão-de-visitas nacional na metrópole mais famosa do mundo.
O contraste é imediato, violento e abissal. De um lado, a sublimação da cultura através da ordem; do outro, a redução do espírito à piada de baixo calão.
O detalhe mais cruel dessa crônica de costumes não estava na coreografia em si, mas em quem a executava. Aqueles que rebolavam no chão de Nova York não eram os marginalizados pela falta de oportunidades. Em 2026, com o dólar acima de 5 reais, passagens aéreas proibitivas, hotéis inflacionados e ingressos de Copa que custam pequenas fortunas, aquela multidão em verde e amarelo era composta por uma elite. Eram brasileiros com acesso ao consumo, portadores de diplomas, herdeiros ou construtores de grandes patrimônios financeiros. Gente que teve acesso às melhores escolas e oportunidades que o país pode oferecer.
E é aí que a ferida se abre. O episódio em solo americano enterra de vez a velha ilusão de que os problemas comportamentais do Brasil são fruto exclusivo da vulnerabilidade socioeconômica ou da falta de recursos. O dinheiro compra o bilhete para a Times Square, paga a hospedagem em Manhattan, mas não compra o que falta na bagagem.
Cultura, afinal, não se mede pela conta bancária de seus cidadãos. Cultura tem a ver com caráter coletivo, com aquilo que toca a alma de um povo e dita o que ele considera orgulho ou vergonha. Tem a ver com valores morais e com a noção rudimentar de decoro. Enquanto uma nação escolhe mostrar ao mundo sua capacidade de organização e respeito, a outra, representada por sua parcela mais privilegiada, escolhe a apelação, confundindo irreverência com vulgaridade.
As duas torcidas cruzaram o Atlântico, mas habitam planetas civilizatórios completamente diferentes.
No fim, quando o tambor calou, a Noruega deixou em Nova York a imagem de um povo que sabe para onde navega. O Brasil deixou apenas o eco de um constrangimento autofágico, mostrando que a nossa maior pobreza, infelizmente, não se resolve com dinheiro.
Autor – Marx Gabriel







